
É mais profunda que a saudade.
A saudade é um tanto passageira, pois no exato momento do encontro supre-se a necessidade da vontade, do tato, da palavra. Mas a nostalgia não, é como aquela pedrinha dentro do sapato, que te agonia de uma forma simplória e insuportável, que só cessa se você a tira.
Como então arrancar a nostalgia da sua própria essência?
A pedra é fácil.
A saudade nem tanto.
A nostalgia, só com o tempo.
Mas mesmo assim não te garanto.
Porque o tempo engana, de repente a lembrança vem de novo e aí já era...nostalgia de novo.
De um tempo bom de chuva, onde a chuva servia pra te fazer dormir melhor e o ecos agradáveis o prendiam na cama até as dez. Não para desmoronar casas e vidas.
De umas brincadeiras bobas com crianças que eram crianças, que corriam na lama, empinavam pipas, nadavam no rio, pegavam frieira e á tarde comiam bolo de fubá e tomavam café com leite da avó. Não crianças que engravidam aos 12 anos.
De uns desenhos antigos e educativos. Não da réplica de bonecos, nas mãos de cada criança.
Das telas de aquarela, dos tons, cores e sensações que representavam a liberdade de expressão, a forma de exprimir o sensível, o belo. Não para serem expostas em redomas de vidro blindadas.
Das camisas furadas de futebol, com calções velhos e desgastados em corpos anônimos que se divertiam no campinho do bairro em algum final de semana. Não essa bola jogada por camisas de time, com marcas de corporações internacionais.
Das coisas simples e sorrisos puros. Da carteira cheia se sementinhas de girassol e a felicidade por se ter uma moeda de 50 centavos. Do suor da brincadeira na rua. Da boca melada de brigadeiro de uma tarde de Domingo. Dos amigos peraltas, gordinhos, de joelhos feridos semi-cicatrizados. Das canções de ninar. Dos sonhos relatados em desenhos...
Nostalgia dessa vida. Saudades de viver.





