Dissipara-se toda tristeza e mau-humor.Quanto te via assim, sereno, insípido, desejara por um momento morar em tuas águas, e tornara-me até egoísta e mesquinha em te querer só pra mim.
Naquele momento eras meu, e a alma uivava de êxtase a cada minuto que me pertencias. Todos os conflitos mundanos haviam sumido, as areias sagradas impregnavam a sola dos pés, o verde ávido e berrante das árvores fixavam meus olhos estupefatos de alegria, os animais estavam lá festejando Deus, tão dignos filhos quanto o homem nem pode mensurar.
E eu era filha. A filha bastarda da natureza.
E meus irmãos tão bastardos quanto. Apesar da vergonha...encolhia-me em alguns ramos e arbustos observando aquela festa única, todos em completa harmonia. Deus. Animais Irracionais. Flora. Fauna. Rio...A Amazônia era feliz.
E onde estavam os animais racionais, além de mim?
Eu.Ali.Acolá. Tentando absorver aquela energia que não me pertencia, apenas me cediam por bondade divina. Perguntava-me, o porquê muitos não entendiam isso...que somos agraciados da bondade dos céus por poder conviver com todos esse elementos únicos e sagrados assim tão perto.
Perguntava-me, o porquê a razão humana destrói o que há de mais vital no mundo.
Perguntava-me, o porquê á alguns quilômetros dali estavam sendo derrubadas milhões de hectares de floresta para a criação de um gado que será devastado também.
O olhar de uma ave veio ao meu encontro, e já voltando ao mundo real do desgosto trouxe á canoa até a superfície e caminhando amiúde apenas pedi baixinho : - Meu Deus, perdoe-nos por tanta arrogância. E olhando aquele céu agradeci, por ainda poder conviver com isso, nadar nesse rio, respirar esses ares pois ser filha da Amazônia hoje com certeza não terá o mesmo efeito que amanhã.




